Lição 10: Quando a Divisão se Instala na Família (Jovens)



     O sentido de algumas palavras pode ser compreendido através da estrutura de seus elementos mórficos. A palavra divisão, por exemplo, é uma dessas. Ela possui o prefixo “di", que significa duplicidade, e o termo “visão”, que pode assumir vários significados. Entretanto, prioritariamente, pode ser entendido como a “percepção do mundo exterior” ou "aquilo constituinte de uma expectativa ou um desejo”. Assim sendo, ocorre a divisão quando duas pessoas juntas têm visões distintas sobre o mundo exterior, ou quando, entre elas, os ideais ou os desejos não são compatíveis. Como dois andarão juntos se não estiverem de acordo? (Am 3.3)
A divisão, dessa forma, cria dificuldade para as coisas permanecerem estáveis. Por isso, o Senhor Jesus disse: "todo remo dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt 12.25). Destruição completa e queda, assim, são consequências da divisão. Isso decorre do princípio, segundo o qual, um plano somente será viável caso persista em suas características iniciais. Havendo divisão, surgirão novos projetos. Todavia, a glória do original jamais será restaurada.
Em toda a história da humanidade, observam-se muitas “quedas e devastações” decorrentes da divisão. Aconteceu, por exemplo, na partição de Israel, depois dos períodos áureos de Davi e Salomão, ocasião em que a terra santa foi dividida entre o Reino do Norte e o do Sul. Os dois Reinos foram decaindo gradativamente até serem levados cativos para terras longínquas. O Reino do Sul, Judá, ainda conseguiu retornar para Jerusalém. Entretanto, depois de subjugado, finalmente, no ano 70 d.C., foi esmagado por completo pelos romanos, acontecendo a Diáspora. Israel nunca mais foi o mesmo depois da divisão. Queda e devastação foram observadas no Império Grego, depois da morte de Alexandre, o Grande, quando o reino foi dividido em quatro partes e, aos poucos, entrou em declínio, até ficar completamente absorvido pelo Império Romano, o qual, séculos depois, também entrou em colapso pela ocorrência desse mesmo processo.
A partir do século XV, o comércio de africanos como escravos para diversas partes do mundo, inclusive para o Brasil, não foi decorrente de invasões estrangeiras naquele continente, mas sim por causa de guerras entre etnias africanas inimigas. As pessoas das linhagens derrotadas nas batalhas eram vendidas aos comerciantes árabes e europeus, embarcando em navios negreiros para nunca mais retornarem à sua terra natal. "Assim, consta que o comércio de escravos que se estabeleceu no Atlântico entre 1450 e 1900 contabilizou a venda de cerca de 11.313.000 indivíduos”.
Atualmente, a África está dividida em 54 países, sendo o continente mais pobre do mundo, corroborando para tal circunstância, dentre outras, a profunda divisão étnica e cultural ali existente, gerando, ainda, prolongadas e sangrentas guerras em diversos países. Como mencionado, Jesus advertiu que um reino dividido contra si mesmo seria devastado. Muito lamentável.
Na história do século XX, de igual forma, alguns países tiveram grandes prejuízos por causa de divisões, como são os casos da Coreia e Alemanha, que se separaram após a 2a Guerra Mundial.
Com a queda do muro de Berlim, no dia 9 de novembro de 1989, e a reunificação da Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental, o novo país restaurado se transformou numa das maiores economias do mundo. A antiga Coreia, entretanto, nunca se reunificou. Hoje, a Coreia do Norte continua empobrecida, com graves agressões aos direitos humanos (desenvolveu apenas sua indústria bélica), e a Coreia do Sul ainda está em processo de desenvolvimento.
Da mesma forma que aconteceu com vários países do mundo ao longo da história, inúmeras famílias também têm se desintegrado por causa da divisão instalada. No início da década de 1980, o mundo parou para assistir pela TV o enlace matrimonial entre o príncipe Charles e a princesa Diana, considerado o casamento do século. Anos depois, tendo a divisão se alojado naquela família real, o lar não subsistiu. Com as traições, conspirações e mortes, a sua ruína foi completa.
Desfecho distinto aconteceu com o casal Clinton. Mesmo com a infidelidade do esposo e então presidente americano, Bill Clinton, sua esposa, Hillary, decidiu permanecer no casamento. Posteriormente, em 2009, ela assumiu o posto de Secretária de Estado do seu país e, atualmente (2015), está cotada para concorrer à presidência dos EUA pelo partido Democrata. O casal enfrentou toda sorte de turbulências e, mesmo assim, ficou junto e, hoje, pode continuar o projeto de vida em comum.
Como dito antes, “havendo divisão, surgirão novos projetos”. Esses novos planos podem dar muito certo numa empresa onde, fazendo a repartição em segmentos, são estabelecidas diversas personalidades jurídicas (divisões) para as áreas de seguros, previdência, capitalização bancária, etc. O problema é que isso não vale, necessariamente, para a família, projeto feito para durar para sempre. Portanto, quando a divisão acontece na família, faz emergir inexoravelmente a presunção de dificuldades.
A história da família do patriarca Isaque, filho de Abraão, apresenta, com riqueza de detalhes, pessoas muito comuns. As características desses personagens são vistas, ainda hoje, em qualquer família contemporânea. Não se trata, pois, de um épico judaico com elucubrações fantasiosas, mas sim da narrativa de uma família que conviveu com os defeitos dos seus membros e enfrentou, por isso, questões interpessoais mal resolvidas. O relato é crível, verossímil, plausível, real. Trata-se de um primor, uma obra perfeita e excelente.

I. Uma Família Abençoada
1. Pré-história
E importante conhecer a história anterior ao nascimento de Isaque, a fim de se dimensionar o status desse homem excepcional e, a partir daí, compreender melhor todo o desenrolar de sua vida familiar.
Um homem da antiguidade, para ser feliz, precisava de duas coisas básicas: possuir uma terra para viver e ter um filho para preservar sua memória. Abrão morava em Ur dos Caldeus, uma terra que não era sua, e cuidava de 1x5, um filho que não era seu. Ele tinha riquezas, amizades, destaque social em Ur, porém não tinha uma família completa e feliz. Um dia, o Altíssimo o mandou ir embora, e ele foi. Era preciso somente seguir as instruções para receber uma terra como herança e poder gerar um filho. Abrão queria alcançar a promessa, e o primeiro passo para isso era chegar a bom termo em sua jornada.
O Todo-Poderoso não lhe deu um mapa; apenas o mandou sair de Ur, e ele partiu. Por que Deus fez isso? Porque o Eterno queria que Abrão fosse um referencial de fé para sua família e para todo mundo, porque nele seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12.3).
Deus prometeu ao patriarca fazer dele uma grande nação (Gn 12.2). Entretanto, depois, o Senhor lhe deu uma promoção: garantiu fazer dele “pai de multidões de nações” (Gn 17.4,5). Por isso, Deus mudou o nome de Abrão para Abraão, como também alterou o nome da sua esposa para Sara (Gn 17.15,16), pois ela seria “mãe das nações” e de “reis de povos”.
Muitos anos após chegar à terra de Canaã, e depois de diversos equívocos cometidos pelo ilustre casal, em cumprimento às inefáveis e gloriosas promessas de Deus, nasceu o herdeiro de todas as bênçãos que pendiam sobre Abraão e Sara, o qual foi criado em um lar no qual havia amor e carinho; talvez, em todos os tempos, ninguém tenha sido, como filho, tão amado como Isaque, que se constituiu em um presente inefável do Altíssimo na velhice dos seus pais e motivo de alegria (riso — Gn 21.6,7) para toda a sua família.
2. Casamento no Senhor
Com uma educação primorosa, tanto no aspecto espiritual quanto no moral, Isaque transformou-se num homem excelente. Ele era um homem de oração. Depois da morte de sua mãe, Abraão entendeu que era chegado o momento do casamento de seu filho. Enquanto Eliézer foi buscar uma esposa da linhagem paterna para ele, Isaque foi orar (Gn 24.63). Ele conhecia o Senhor, o qual, muitas vezes, no futuro, se identificaria como sendo o Deus de Isaque.
Tudo aconteceu de forma maravilhosa. Isaque e Rebeca se casaram no Senhor, cheios de alegria (Gn 24.67). As coisas começaram muito bem, pois contaram com a direção do Altíssimo, a bênção dos pais e o sentimento de amor recíproco dos nubentes.
Eles formavam o casal sobre o qual repousariam bênçãos divinas inigualáveis. O casal se constituía em paradigma de amor conjugal, espiritualidade e moralidade. Eles tinham uma casa edificada sobre a Rocha, conheciam o Senhor e eram submissos à sua palavra.
Isaque e Rebeca viviam assim, compartilhando vidas, sonhos e emoções, como veremos a seguir.
3. História que se repete
O desejo de ter uma família feliz passava, necessariamente, pelo nascimento de um filho, porém Rebeca era estéril. Não haveria o futuro profético tão almejado sem um filho. Uma enorme dificuldade para o novo casal que, junto, sonhava com o nascimento de um herdeiro, para ser aquele através do qual descenderiam tantos como as estrelas do céu. Abraão e Sara, os pais de Isaque, passaram pelo mesmo problema com Sara, e eles tentaram resolver a questão pelo modo deles (com a egípcia Agar), e não deu muito certo, pois criaram um embaraço para toda a descendência, o qual, inclusive, permanece até hoje, o conflito árabe-israelense.
Isaque e Rebeca, ao contrário, não pegaram nenhum "atalho”; antes entraram pelo caminho da oração. Eram pessoas de fé. Após vinte anos de oração, Rebeca engravidou e nasceram-lhes gêmeos (Gn 25.20-21; 26). Glória a Deus, o qual, após isso, confirmou a promessa: a descendência de Isaque seria como as estrelas do céu (Gn 26.4). Por outro lado, a vida financeira e social da família de Isaque estava indo muito bem (Gn 26.12-14). Não lhes faltava nada. Afinal de contas, "a bênção do Senhor é que enriquece, e Ele não acrescenta dores” (Pv 10.22).

II. Problemas
1. Pais com preferências filiais
No momento em que mais a família precisava caminhar junto, formando um laço indestrutível, para exemplo em todas as famílias do mundo (Gn 12.3), um aspecto bastante ruim começou a se manifestar no caráter de Isaque e Rebeca (Gn 25.28).
Isaque se afeiçoou profundamente pelo filho Esaú, o qual era homem de ação, de luta, de embates, que sabia como alvejar, com seu arco, uma caça que se movia rapidamente, além de conhecer, talvez até melhor que a mãe, o tempero da comida que era agradável ao pai. Esaú era a satisfação para seu velho pai, porém não dava prazer ao Altíssimo. Ele era profano (Hb 12.16). O interessante é que a Bíblia não mostra Isaque repreendendo Esaú pelos seus graves equívocos comportamentais. Ao que tudo indica, o pai se omitiu de ensinar o filho como andar com o Todo-Poderoso, diferentemente da conduta de Abraão. Filhos criados de forma diferente apresentam sempre diferenças importantes. Os ensinamentos recebidos não foram suficientes para tornar Esaú em um homem de fé.
Rebeca, por sua vez, amava o caçula, um moço pacato, de hábitos caseiros. Possivelmente, ele não sabia, sequer, utilizar arco e flecha e nunca tinha matado uma gazela. Isso não era importante para sua mãe, que gostava de vê-lo em casa, em atividades pouco agressivas. Talvez Rebeca se sentisse consolada por sua preferência por causa de uma revelação divina recebida, segundo a qual o filho maior serviria ao menor (Gn 25.23). Contudo, como a palavra profética não havia sido dirigida a Isaque, eventualmente ele não tenha acreditado na veracidade dessa promessa.
Pelo que se percebe do texto bíblico, essas preferências dos pais não eram em nada dissimuladas. Os irmãos, desde muito jovens, sabiam perfeitamente da forte divisão naquela abençoada família. Certamente, era uma questão incómoda para todos. As esposas de Esaú, os criados, os pastores de Isaque, todos, enfim, deveriam conhecer bem de perto o antigo problema familiar, através dos sinais claramente perceptíveis que Isaque e Rebeca emitiam. Os pais faziam questão de tomar partido. Isso é lamentável.
2. Filhos com cosmovisões distintas
Quando a divisão se instala na família, os danos são imprevisíveis. A maneira diferenciada dos pais tratarem os irmãos repercutiu, certamente, no desenvolvimento emocional de ambos. A Bíblia não diz expressamente, entretanto seria natural que o pai tratasse com desdém, vez por outra, a presença “desinteressante” do filho mais novo, ao passo que vibrasse e sorrisse efusivamente com as façanhas do primogénito. Em contrapartida, da mesma forma, é provável que a mãe sempre implicasse com os "maus modos” do mais velho e guardasse sempre a melhor comida para o caçula, dentre outras coisas pontuais, que, ao longo da vida, foram distanciando emocional e espiritualmente os pais dos filhos, bem como os irmãos entre si — que acabaram absorvendo cosmovisões diferentes. A vida de Jacó era agradável ao Eterno (Ml 1.2; Rm 9.13), já Esaú era sexualmente descontrolado (prova disso é que se casou com duas mulheres pagãs, as quais trouxeram muita aflição à família patriarcal (Gn 26.34,35) e, depois, com uma terceira (Gn 28.9)). Ele também não respeitava as coisas santas do Senhor. Era, por isso, fornicador e profano (Hb 12.16). Jacó valorizava as coisas espirituais, e Esaú as materiais (Gn 25.34), razão pela qual, aos quarenta anos, casou-se com duas mulheres ímpias, enquanto que o caçula decidiu esperar em Deus pela esposa certa (Gn 27.46), vindo a se casar somente aos 84 anos! (A demonstração disso está no Capítulo 4, item 1.1).
3. Rompimento familiar
Iniciada como uma fagulha, ainda no ventre materno (Gn 25.22,23), a divisão concretizou-se decisivamente aos 77 anos de convivência dos irmãos, no momento em que o pai, já cego e debilitado, achava que iria morrer.
Depois de Jacó enganar o pai e Esaú, o último elo entre os irmãos foi totalmente desfeito. O que era “apenas” inimizade tornou-se ódio descontrolável. O campo de treinamento de Deus, a família, transformou-se em campo de batalha entre irmãos. A guerra estava deflagrada abertamente, e Rebeca, sempre muito perspicaz, ouviu uma informação terrível: Esaú estava propondo matar Jacó. Por causa disso, temendo perder seu filho querido, enviou-o a Padã-Arã, porém tencionava buscá-lo quando a ira de Esaú diminuísse. No entanto, nunca o fez, sinalizando um rompimento fraternal grave e duradouro.
Não é sabido se Rebeca, a serva do Senhor, se arrependeu por ter discriminado o filho mais velho durante toda a sua vida e mimado o mais novo, ensejando, no fim de tudo, uma confusão que a afastaria para sempre do seu filho amado Jacó.
A lição extraída disso tudo é que o ódio plantado na família pode ser incontrolável. O correto é remover, com urgência, o mal pela raiz, através do perdão. E muito triste saber que um casal tão abençoado como Isaque e Rebeca tenha errado de maneira tão decisiva na educação de seus filhos. Fica o exemplo para todas as famílias da terra. O amor deve ser distribuído profunda e indistintamente entre os filhos. Caso contrário, a formação deles, inclusive a espiritual, ficará comprometida.
Dessa forma, é bem possível que a divisão na família de Isaque tenha cooperado, ainda que minimamente, em produzir um filho completamente distanciado dos padrões divinos, como foi Esaú.

III. Fim da História
1. A fuga
Fugir nunca é a melhor saída. O importante é que cada pessoa assuma seus erros e arque com as consequências. Jacó, porém, diante do drástico rompimento familiar, empreendeu uma longa viagem à terra de seus avós maternos. Ele não sabia que lá, distante dos cuidados de sua mãe, passaria por momentos bastante difíceis. Seu tio Labão foi um péssimo anfitrião.
Egoísta e traiçoeiro, Labão fez o sobrinho experimentar dos seus próprios métodos familiares, com os quais enganara seu pai e seu irmão. Não adiantou reclamar, pois o irmão de sua mãe mudou seu salário dez vezes, com o objetivo que não tivesse prosperidade nos negócios. Apesar disso, o Eterno o ajudou e o abençoou (Gn 31.7,41,42). Entretanto, como toda fuga tem seu fim, chegou o dia determinado pelo Altíssimo, no qual o fugitivo voltaria à sua terra.
2. O retorno
“Então Jacó orou: ‘Ó Deus de meu pai Abraão, Deus de meu pai Isaque, ó Senhor que me disseste: ‘Volte para a sua terra e para os seus parentes e eu o farei prosperar'” (Gn 32.9 NVI). Jacó estava muito aflito! E por quê? Porque ninguém pode ser feliz se, no passado, rastros de sofrimento foram deixados sem solução, se inocentes ficaram no prejuízo e se lágrimas de aflição rolaram sem consolo. O Senhor pedirá contas um dia. Essa é uma lei inexorável. Imagine agora como a situação fica mais complicada se isso aconteceu em nome do Altíssimo? Que drama! Que incongruência! Pois foi exatamente tal circunstância que se deu na vida do patriarca Jacó. E foi por causa disso que o Senhor determinou seu retorno à terra de seus pais.
Questões mal resolvidas são pedras no caminho da felicidade. No texto bíblico agora citado, há a informação de que o Criador mandou o "usurpador” retornar à “casa de seus pais e aos seus parentes”. Que grande susto para um fugitivo! O dia de fazer um “acerto de contas” com o seu passado havia chegado. Ele não poderia seguir adiante sem isso. Bem, ele até poderia, só que sem a bênção do Altíssimo.
Jacó, anos antes, tinha fugido de sua casa, por causa de uma trapaça que fizera. Seu irmão gêmeo e pai foram enganados. Sua conduta trouxe vexame, dor e lágrimas para sua família. Ele viajou para uma terra distante, arrumou emprego, casou, ficou rico, estava aparentemente tudo bem... contudo, havia algo que o amarrava... Era o ódio pelo seu irmão. O problema é que Jacó tentava empurrar isso para “debaixo do tapete” da existência. Porém, seria inútil. O filho preferido da mãe não poderia mais dar legalidade ao inimigo. Ele precisava enfrentar os dramas causados por suas escolhas egoístas, pois era um fugitivo dos seus próprios erros. E precisava deixar de ser, pois os foragidos nunca encontrarão a verdadeira paz. Como escapar de si mesmo? Como escapar da própria consciência que arde? Há uma lei, um princípio, que proíbe a existência de felicidade plena se, no passado, maldades foram perpetradas contra pessoas inocentes.
Essa diretriz da justiça divina está em toda a Bíblia e alcançou a vida do filho pródigo, narrada por Jesus em Lucas 15 (aquele moço jamais seria feliz se não voltasse para se reconciliar com seu pai). Um dia, na fazenda em que cuidava dos porcos, ele, caindo em si, entendeu que o único caminho da felicidade era voltar, para se reconciliar com seu pai. Do contrário, ele nunca se reencontraria com o caminho da vida.
A bênção do Todo-Poderoso somente flui, em sua plenitude, para quem responde pelos sofrimentos causados intencionalmente, sobretudo aos familiares, de maneira a evitar que os inimigos do Senhor blasfemem, conforme Natã explicou a Davi (2 Sm 12.14).
Assim sendo, filhos que abandonaram e praguejaram contra seus pais, ou vice-versa, ou quaisquer outros relacionamentos que exigiam cumplicidade recíproca diante de Deus, e que daí adveio traição, só poderão encontrar o caminho da paz quando restaurarem, pelo perdão, os elos vitais quebrados. Talvez, por enquanto, o Senhor não esteja exigindo uma conduta objetiva a esse respeito, mas no futuro o Altíssimo certamente cobrará o retorno, para um reencontro indispensável.
O Excelso Criador tinha mandado que o avô dos irmãos beligerantes, Abraão, saísse da sua terra e da sua parentela para uma terra que manasse leite e mel, mas o Senhor nunca determinou o retorno do pai da fé à sua terra natal. Por quê? Porque a vida de Abraão, em Ur dos Caldeus, estava bem resolvida familiarmente! Ele não era foragido, mas partiu de cabeça erguida. Entretanto, seu neto, ao contrário, tinha deixado marcas de sofrimento na vida do pai e do irmão e, por isso, era preciso retornar para pagar o débito com o Eterno e com sua família (Gn 32.3), pois quem assim não procede nunca poderá seguir em frente.
Da mesma forma, esse princípio divino atuou no caso de Onésimo, o escravo fugitivo de Filemon. Deus queria que ambos resolvessem a “quebra de fidelidade” que tinha acontecido. Paulo, por isso, escreveu uma carta ao seu amigo Filemon, determinando o reencontro. Voltar ao passado é um requisito para ser feliz e próspero na vida. Onésimo nunca poderia ser um obreiro eficaz com um "mandado de prisão” contra si. É preciso que todas as amarras sejam soltas.
Interessante, Deus havia dito a Jacó: “volte... e o farei prosperar.” Farei prosperar? Mas Jacó já não era rico e tinha muitos filhos? Sim, porém ele não era próspero! Só a partir daquele reencontro, o Senhor lhe daria a real prosperidade.
Para retornar e resolver os conflitos do passado, como sempre acontece, um forte medo invadiu o patriarca. Não seria bom continuar se evadindo? Só que o Eterno não aceitaria... Ele havia colocado Jacó numa encruzilhada. Sem ter alternativa, enfrentou o dilema do retorno da maneira que aprendera com seu pai Isaque e seu avô Abraão: buscando a Deus. Antes de se chegar ao seu irmão, reencontrou-se com o próprio Criador, em Jaboque, durante toda uma noite, quando seu caráter foi mudado. Ele deixou de ser “enganador” e foi transformado em Israel, que significa "aquele que luta com Deus”.
Será que na sua vida existe alguma relação que precisa ser reatada, principalmente diante do Todo-Poderoso? Uma má ação praticada contra alguém que amava você? Uma lembrança triste, a qual você prefere não trazer à memória ou que você prefere não mencionar? Talvez este seja o seu momento! O Senhor, quando fala assim, o faz por amor, visando que as coisas voltem à normalidade e que a bênção dEle seja derramada abundantemente.
3. O reencontro
Vinte anos já tinham decorrido desde a fuga de Jacó, mas agora ele retorna com tudo que possuía para se reencontrar com a sua família (Gn 31.17,18). Esaú era uma sombra no seu passado, uma marca indelével. Diante disso, Jacó enviou mensageiros para informar a Esaú que ele estava chegando (Gn 32.3-5). O medo da vingança assombrava o fugitivo patriarca e ficou ainda mais forte quando os emissários voltaram, pois disseram que Esaú viria ao seu encontro com quatrocentos homens (Gn 32.6,7). A partir daí, Jacó voltou a tratar diretamente com aquEle que pode fazer todas as coisas e que aparecera a ele no caminho de ida (Gn 28.10-13). Ele fez uma vigília a noite inteira e teve um encontro com o Altíssimo (Gn 32.22-31). Ao amanhecer o dia, Esaú despontou no horizonte com quatrocentos homens. Era um grande exército para a época! Mas o Senhor se compadeceu de Jacó e houve reconciliação entre os irmãos. Está escrito: “Então, Esaú correu-lhe ao encontro e abraçou-o; e lançou-se sobre o seu pescoço e beijou-o; e choraram” (Gn 33.4). No fim de tudo, Israel (aquele que lutou com Deus e prevaleceu), com a alma leve, teve um grave entrave do seu passado resolvido. Só não aconteceu mortandade porque Jacó buscou ao Senhor em tempo (Os 12.3,4) e se humilhou ante Esaú, recebendo o perdão, podendo, mais uma vez, sorrir livremente. Nada mais impediria aquele ancestral de Jesus a ser próspero de verdade, com toda sua família. Glória ao Eterno! O reencontro marcou a completa reconciliação de irmãos que estavam separados há décadas. A família de Isaque agora poderia seguir seu caminho. Só o Criador cura graves traumas familiares.
Tempos depois, Isaque morreu, e seus descendentes, unidos, sepultaram-no (Gn 35.29). “Nota o homem sincero e considera o que é reto, porque o futuro desse homem será de paz” (SI 37.37).
Os descendentes de Isaque experimentaram as consequências de uma danosa semente de discórdia plantada pelos próprios pais. Fica o exemplo. É preciso haver equilíbrio no tratamento dos filhos, confiança no caráter de Deus, que sempre cumpre as suas promessas, além de um profundo desejo de construir um lar que glorifique ao Senhor, que faça a diferença na terra. Este é o plano divino para os jovens que esperam no Senhor!


Autor: Reynaldo Odilo



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